Desde que veio à luz dos olhos portugueses, o jornal «24 Horas» acarinhava diariamente os escritos dos seus Leitores. Embora reagindo com indignada firmeza à abrupta levada de computadores para «análise sistemática», passada a esponja sobre o «democrático» atropelo à plena liberdade de expressão - que até nem foi intimidação alguma, não senhor - a direcção do jornal decidiu fechar as portas a «O leitor é quem manda».
E pronto, não manda, não manda. Fica a memória: era uma vez um jornalinho que acolhia os desabafos de seus leitores e assim se transformou num incomodativo jornalão que rosnava forte e feio à corrupção e ao esconso manobrismo partidocrático.
Toninho - Ó pá, para onde vais escrever agora?...
Tadeu - Eu?... Não estarás equivocado na porta?!...
Toninho - Ah... Hoje escreves tu e amanhã escrevo eu.
PORTUS e CALLE
Ainda o primeiro rei de Portugal seria apenas plausível gota de água, haverá dois milhares de anos, onde é hoje a Ribeira portuense, havia naturalmente um cais onde as pequenas embarcações, devotadas às diversas fainas, atracavam.
Fortíssimo de muscúlos, alto e espadaúdo, quem geria e comandava o movimento de cargas e descargas, era um indivíduo que toda a gente conhecia e chamava por Portus. Ó Portus isto, ó Portus aquilo.
- Aonde vás hoji, ó home?
- Ó mulhere, voi ao Portus, vere se arranjo peixi...
O Portus transitava frequentemente entre as duas margens e, do lado de lá, tombou de intensos cios por uma bela moçoila que tinha cabelos até às nádegas e seios de meloa jeitosinha.
Um dia, ao pôr_do_sol, chamou o seu principal ajudante e disse-lhe que tomasse conta das mercadorias depositadas no cais, uma vez que tencionava passar a noite inteira na outra banda. - Si ouver male, chama por mi.
Em meia-noite de breu, alguns larápios decidiram roubar cestos cheios de milho - ainda não havia sacos e muito menos contentores - e o fiel ajudante que estava de atenta vigia, foi de imediato para a borda do rio, de mãos ao redor da boca, chamar em altos brados pelo seu chefe:
- Portus, Portus, ó Portus, ó Portus...
Na circunstância, estava o Portus em esplêndido recato, movimentando-se quanto podia para obter a suprema ascensão a Vénus. Ao ouvir o tonitruante e persistente apelo do companheiro, desesperado, começou em vocal potência a berrar:
- Calle, calle, calle, calle...
O eco dos ditos-gritos, que queriam dizer e significavam «cala-te», acordaram a população que dormia nas imediações das duas margens e não podia entender o que se estava a passar.
- Portus, Portus, ó Portus, ó Portus...
- Calle, calle, calle, calle...
Se não foi porventura assim que apareceram os nomes das localidades Portus e Calle, como é que foi?!...
NA JANGADA DOS ÍNVIOS
Já não invejo ou cobiço gozos e gáudios de outrem,
já ninguém me diz coisa alguma no absoluto
que assola crianças e animais,
neste quase-no-fim em que lamentavelmente
tenho de defender-me para sobreviver
entre humanos que proclamam a fraternidade
e agem sistematicamente a marginalizar-se.
As excepções?!...
Ó são todas-todas,
biliões e biliões delas onde a regra se extingue,
tenórios-finórios,
gloriosos inglórios
que se afirmam nadas
à boca da cova dos outros
amparando o desgosto das viúvas
e das meninas órfãs
desde do tempo em que havia donzelas...
Hitler queria uma raça pura,
queria uma criatura
que saísse do ventre da mãe
e entrasse por ele outra vez,
sempre à volta, sempre à volta,
tal e qual foi no princípio do mundo!...
Que herda!...
A democracia decorrente, implantada em 25 de Abril de 1974, é de facto um «sistema» político fundamentado no princípio de que a autoridade emana do povo através do voto em eleições periódicas livres que determinam a distribuíção equitativa do poder. Assim tem sido, só que, só que há e permanece um busílico «quê»...
«Sistema»?!... Desde o futebol à pedra-mole que há anos se pergunta o que seja e nenhum dos políticos ou analistas especializados, porque deveras não lhes convém (podia lá convir-lhes!), o explica. O «sistema» é que os eleitores, voltem o seu voto para onde voltem (a maioria já o volta para o manguito), ao cabo de 33 anos, não têm outra hipótese senão votar na mesma-coisa-de-qualquer-lado. O «sistema» é a lista, tal e qual a lista do extinto merceeiro que acentava e somava o que lhe desse na veneta. Fiado que reclamasse ou protestasse, ia fora.
O enormíssimo descarado e impositivo óbice está que a sociedade que garante a liberdade de associação e de expressão, e na qual não existem distinções, privilégios de classe hereditários ou arbitrários, só se verifica entre os alapantes de São Bento e adjacentes da corrupta e inepta partidocracia instalada.
O que têm a ver os adeptos do futebol com as grandes sujeiras que vão surgindo à tona da evidência? Que responsabilidade se pode atribuir ao eleitorado pelos escândalos de toda a ordem e feitio que, impunes, prosseguem e passam como se não tivessem existido?
Democracia?!... Aí está ela: Maria Elisa com a princesa Diana ao colo, mais um «original programa» de uma das maiores democratas portuguesas, sempre a fruir tão-só de privilégios sóbrios, equitativos e inerentes a qualquer comum cidadão.
- República vai tomar banho e vestir-te. Há tanto tempo que não te lavas e sequer notas que estás toda nua.
1ª. Liga = Rescaldo e Perspectiva - III
Viu-se no jogo Sporting-Belenenses (1-0) - através da televisão reviu-se em câmara lenta - que o árbitro é sem dúvida o atleta que mais resultados decide, esteja o jogo no princípio, no meio, no fim ou até depois do fim. Se há tantos anos o equívoco desiderato se mantem e prossegue na mesma, apesar do conflito que permanentemente se levanta, é porque os doutos cérebros de uma tal manutenção entendem que em normas que dão «eficaz resultado» não se mexe. Afinal e exemplarmente, embora cheio de razão e com Deus de seu lado, Jesus, ao passar pelos diversos apitos, foi crucificado. Paciência e devemos perdoar uns aos outros para que possamos fruir semana a semana tão exeburante e emotiva dicotomia. - Ó pá, não há direito! - Não há direito?... Desculpa, mas estás a ver mal...
O Marítimo venceu a Académica (2-0) e o Braga tangencialmente (2-1) desembaraçou-se da Amadora. P.Ferreira-Boavista (1-1), Naval-Setúbal (0-0) e Leixões-Guimarães (2-2) equilibraram os números entre si. O Porto, ainda que defrontando um adversário empolgado pelo êxito internacional, passou em Leiria (0-3) à vontade. O Benfica, adoçado pelo milionário privilégio de se ter mantido europeu, foi à Madeira vencer o Nacional (0-2) e assim apaziguar as dúvidas que andavam no fio da navalha e passaram para o cabo que Camacho em três testes parece dominar.
A próxima jornada cativa pela curiosidade que se debruçará sobre o Porto-Marítimo, as duas únicas equipas que se apresentam ainda com a pontuação incólume no comando do campeonato. Com vantagem caseira, embora com melhor índice goleador do visitante, as apostas tendem naturalmente em força para o lado do conjunto azul-e-branco. Um resultado favorável à rapaziada de Alberto João, colocará o carnavalesco «democrata-ditador» com ganas de tomar o continente e proclamar o Funchal como capital do capitalismo popular.
Os dois «empatas» do campeonato, o Leixões, assaz denodado, de visita ao Bessa e o Guimarães a receber o Nacional, continuarão a considerar que mais vale um ponto na mão do que três na ilusão? Nos Amadora-Sporting e Setúbal-Braga, jogos onde a tripla ideia andará a rondar, eu, no totobola, aplico em ambos a cruzinha no «2». De resto, Académica-P.Ferreira, Belenenses-Leiria e Benfica-Naval, qual deles com sua estratégica importância, deverão arrumar-se a crédito dos que jogam em casa.
Situação dos favoritos:
Porto - 9 pontos = 0
Sporting - 6 pontos = -3
Benfica - 5 pontos = -4
À volta do sexo, antes de escrever algo que considere útil sobre o desiderato, eis o meu perfi sexual exposto sem mas-nem-meios-mas.
Há 40 anos atrás, envolvido a fundo nas complexas malhas do sexo, militava eu na ideia de que o sexo teria de ser tratado com a mesma humanidade com que se tratava a fome, a sede e o sono. Não sabia sequer um palmo dos passos todos que dei até hoje.
Aos 6 anos, assediado por matulões vizinhos, e aos 14, embrulhado por um pedófilo desconhecido, estive perante duas simples tentativas de sodomização. Na primeira não fui violado por ter umas boas goelas e haver sido socorrido imediatamente; na segunda, reagi de pronto e defendi-me à pedrada.
Aos 18 anos, na companhia de amigos com quem saía à noite, lembro-me de ter participado no lançamento de uma boa meia-dúzia «deles» no lago do jardim da Cordoaria.
Daí em diante, quantos ao meu alcance estiveram, tendentes para crianças e jovens, só não os matei por ter sido impedido de levar por diante minha revolta, espécie de raiva inexplicável em que me tomava e ainda me tomo.
Hoje, sempre que me apercebo ou me façam aperceber que um tipo desses está por perto, não hesito, e vou-me a ele de caras, expulso-o, afamo-o, faço o que me for possível para afugentá-lo.
Uma dada vez, ciente e seguro de um caso de vómito, dirigi-me à sanita, levei um jornal comigo, depositei o produto no jornal, embrulhei, voltei à sala do café, reabri a prenda e sem mais apliquei-a na cara do pulha. O gajo, sem saber onde pôr as mãos, levantou-se assolapado e saiu a correr pelo café fora.
Por outra via, quantas vezes já bati em mulheres? Oh, infelizmente, muitas. Da larga dúzia com quem vivi de facto, nenhuma escapou aos clássicos tabefes do exercício doméstico, mas nunca, nunca fechei as mãos para bater em mulheres ou usei os pés. Uma houve, espécie de gata colérica, que sem qualquer pré-aviso me deixou a cara em péssimo estado e tive de ficar duas semanas dentro de casa a curar-me. Aos 68 anos ainda tenho esperança de encontrar a mulher em quem nunca serei capaz de bater.
Quantas vezes por gáudio estuporzeco, do tipo Sansão marreco, humilhei sexualmente mulheres? Oh... Muitas, muitas vezes e a maioria delas - ó que esplêndido espanto - agradou imenso às minhas parceiras. Algumas delas pediram-me mais humilhação ainda e mais deboche. Ó que festas de leão maluco eu fruí entre leoas doidas de cio. Alturas houve em que me esqueci por completo que tinha juba.
Por causa de mulheres, vencendo ou perdendo, bati-me a soco e a pontapé dezenas de vezes com rivais que como eu se assumiam com direito de reserva. De resto, tenho um carácter, queira ou não queira, onde a «nossa-senhora-do-alívio» aparece logo a seguir à «nossa-senhora-das-dores».
Em resumo, segundo o que enxergo, sinto e experimentei, a vida, na vertente em apreço, é mesmo isto e o resto é treta com tinta e cola, daquela treta onde o bonzinho, que nunca fez malzinho a alguém, merecia de imedito apanhar dois bons biqueiros na testa. Qualquer autêntico e inocente anjinho que aparecesse, mereceria quatro.
A seguir, sim, se mo permitirem, voltarei para escrever sobre sexo.
E de repente, a menção do nome de Mindelo na RTP1, põe-me de olho e ouvido atentos defronte ao televisor. Foi de lá que há 68 anos veio o óvulo onde um espermatozóide portuense, batendo a legítima concorrência em maratona ao microscópio, se anichou com êxito na órbita das reviravoltas ao mundo em 24 horas.
Mário de Almeida, um engenheiro-político que há sucessivos mandatos preside à câmara vilacondense, posto em ar grave e sério, está a afirmar - e eu pasmo indignado - ser lastimável e vergonhoso que a reserva ornitológica mindelense, um soberbo oásis de verde e passarada à rasca, apareça de repente a acobertar um estendal de nefandas montureiras de lixo, um negligente crime de lesa-tudo-e-todos que as vozes há tanto tempo propalam a entrar por um ouvido e a sair pelo outro de olhos fechados.
Agora, como de outras tantas feitas e desfeitas, é preciso que o erário público acorra com umas largas sacadas de euros que, uma vez despejadas, quiçá servirão para levar o lixo para outra banda. Como se constata, a solução é sempre a «mesmíssima» e logo preconizada por aqueles que têm estado de pés e mãos em cima da (ir)responsabilidade sociológica.
Apre, admira-me que o doutor Joaquim Cardoso, num ousado ápice de «basta-de-porcaria», não mobilize de imediato em sucessivos fins-de-semana os tractores e outros recursos da freguesia dos «bravos» - e não são poucos - para libertar o seu reduto de semelhante lástima.
Quem bem se lembra da praia de Mindelo nos anos 40/50/60, uma das mais benquistas e prestigiadas do Norte, defronte ao actual deparo, com aquele crónico esgoto disfarçado a poluir o mar envolvente, crispa decerto o olhar, deita os dedos ao nariz e olha para o céu impotente, rendido ao malefício que se expande entre tantos «técnicos» que «revolvem-e-absorvem» o assunto. Mais: quem se abeire das margens do Rio Ave e lance vista à água que corre em oleoso cinzento enegrecido, ao passar pela náusea física, passa ao mesmo tempo pelo espanto de «como-é-possível» que o futuro se anuncie assim.
É evidente que urge limpar, limpar mais uma vez, limpar sempre, motivar sub reptícias engrenagens de corruptas ambições sem limite, limpar de uma vez por todas, a começar por cima, porque de facto o lixo está deveras face a face, sacudindo-se em impositivo descaro para cima daqueles que de si tudo têm dado para viver tranquílos na sua terra.
O inspirado versejo do louvado Régio «entre pinhais, rio e mar», soçobra pois dia a dia, como a arrumar-se em definitiva memória que ninguém mais poderá tocar e fruir, como eu toquei, como eu felizmente fruí.
Mariza, Mariza Nunes, é uma genuína moçambicana-portuguesa por um triz. Nasceu a 16 de Dezembro de 1973. Agora, e só agora se conhece e interessa saber como é que foi. Foi, depreende-se fácil, com o adensar da intranquilidade após Abril de 1974, que seus pais se viram obrigados a tentar uma outra vida na metrópole, em Lisboa, e Mariza, apenas com três anos, naturalmente acompanhou-os. Por consequência, a crescer para a vida entre a Mouraria e a Alfama, Mariza não escapou aos trinados e gemidos das guitarras, inculcando desde muito cedo as poses e os pendores das cantadeiras que ouvia, embora então propendesse para outros mais dinâmicos almejos musicais como o gospel, o soul e o jazz.
Qu' é dele, aonde pairará agora?
Como verá as pessoas
quando espreita cá pra fora,
se ainda espreita a dúvida?
Terá deixado de fumar,
de encher-se de veneno revigorador
ou presiste comprazer-se,
ausente dos prazeres saudáveis
que cada vez mais aguçam a dor?
Aquele «homem que pensou
com uma pedra na mão
transformá-la num pão
transformá-la num beijo»,
permanece ou não no desejo
de alicerçar a casa e erguê-la?
Entre tantos escombros
ao redor do derradeiro ninho
o pássaro exausto de voar
soerguer-se-à sempre de novo,
febril passarinho
que parece desfalecer
aquém de viver?
E os versos,
os versos que trespassam paredes,
que escapam às redes
e engolem os anzóis
com a linha cortada
pelos dentes cerrados,
surgirão como golfinhos
à flor das águas?
António,
vem aí Outubro
balanceando o peso dos ramos
para o lado da rosa,
flor na trincheira das letras
perfumando a aragem do Outono
durante a morte dos frutos.
Aquele «homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra»
já levita,
ascendende ziguezagueante
para ligar-se aos raios da luz
além, muito para além
do tenebroso paradoxo da existência
em português e enfim livre da liberdade.
Desculpe-me, Mestre, a sinceridade
meu búzio incauto sopra-me a verdade
e por isso me antecipo à lonjura
antes da minha hora de silêncio.
Porto - Tdg ao redor oito versos de António Ramos Rosa